Logo-grupo-cimm

Apegue-se à grandeza do ser!

000000000000000000000  O Velho e o Gato

Foto Meramente Ilustrativa

O temor ao desamparo e à falta de afeto, o medo de ser esquecido por pessoas queridas e admiradas, o receio de perecer sem alimento e sem calor humano, a angustia de poder ser desprezado, a perspectiva de não ser admirado, bem quisto e respeitado, a fobia de morrer sem provar das delícias da vida, o pavor de se acabar ao relento sem posses, sem amores, nem descendentes, a tensão de passar pela vida despercebido ante tudo e todos, eleva a importância do ‘ter”.

Não que as pessoas sejam educadas para isso, ou seja, valorizar mais o ‘ter’ do que o ‘ser’, trata-se de algo que se impõe pela cultura, há muito instalada na maioria das sociedades. Já na antiguidade, quem nada tinha, nada era, além de escravo ou vassalo. As regalias, os direitos, as honrarias sempre privilegiaram quem mais possuía. Quantas jovens em passado, nem tão longínquo, foram obrigadas a casarem-se com quem não amavam, só porque o pretendente era alguém de muitas posses! Assim, aquele que desejasse ser alguém, para poder escolher uma linda donzela para esposa, ainda que essa não o amasse, deveria ser, por exemplo, um herdeiro rico, um militar de elevada patente, quem sabe um juiz de direito ou alguma outra função que atestasse uma situação de poder ou de abastança, ainda que tal pessoa fosse intelectualmente medíocre.

Já ouvi dizer que se em um determinado evento, tivermos ao mesmo tempo dois senhores a discursar, em salas diferentes, um deles sábio e o outro rico; a audiência do rico será bem mais numerosa! De modo geral, podemos dizer que as pessoas admiram mais quem ‘tem’ do que quem ‘é’! ‘Ter’ dá mais prestígio do que ‘ser’! Por conta disso, muitos estudam arduamente, tendo por pano de fundo o desejo de acesso ao ‘ter’! É bem possível que o pensamento geral seja: “Se eu for um bom médico, um bom advogado, um bom engenheiro, um bom administrador, um bom analista de sistemas, poderei ‘ter’: mais dinheiro, o carro mais desejado, acesso aos ambientes mais badalados e às pessoas mais interessantes, enfim, terei muitas posses e serei muito mais influente! E sendo alguém que ‘tem’ ou deseja ‘ter’ é melhor que me acerque de pessoas que ‘tenham’ ou desejam ‘ter’! Não me é conveniente andar em companhia de quem não ‘tenha’ posses, títulos ou patentes”.

Quem estuda para ‘ser’, pensa: Estudo para ‘ser’ médico porque entendo que essa é minha missão: ajudar as pessoas a serem mais felizes tendo mais saúde. Estudo para ser advogado pois entendo que uma sociedade mais justa será melhor para todos em meu país e me sinto atraído por essa missão, e assim por diante!

O ‘ter’ quase que, invariavelmente, envaidece, dado o intenso assédio das pessoas, dos jornais, das revistas, dos paparazzis, que buscam saber o máximo possível sobre aquele ou aquela que ‘tem’, mais riqueza, mais beleza, mais poder, mais fama. Todos veem com muita importância saber seus nomes, como vivem, que lugares frequentam, onde passam as férias, quais seus gostos pessoais, que marcas vestem, que opiniões possuem sobre as questões atuais, o que bebem, que produtos consomem, etc.

Com tudo isso, se pudermos dizer que quanto mais uma pessoa ‘tem’, mais ela é lembrada, o oposto também será verdadeiro. Quanto menos uma pessoa ‘tem’ mais ela será esquecida. Talvez, seja por essa razão que tantas pessoas pouco se importam em saber o nome do novo faxineiro dos toiletes da empresa, do gari, do entregador de pizzas, do garçom, do guarda da portaria, do garoto que vende balas de goma nos semáforos, do cobrador de ônibus, do servente de pedreiro, daquele senhor que dorme em uma caixa de papelão sob o Viaduto do Chá! Sim! Porque pensam que para ter cada vez mais é preciso que toda relação ‘acrescente’ algo ao que se ‘tem’ e se, aparentemente, um contato nada pode acrescentar, porque efetuá-lo?

Se todos pudessem ‘ser’, independentemente de ‘ter’, se todos pudessem respeitar mais o que as pessoas ‘são’, ainda que nada ‘tenham’, provavelmente, menos Pataxós ou mendigos seriam queimados vivos enquanto dormem nas ruas, tesos e desnudos, ou, no mínimo, quem faz isso, apodreceria na cadeia, ainda que muito ‘tivesse’! ‘Ser’ implica interessar-se, genuinamente, pelas pessoas, pela fauna e pela flora (urbanas ou não), traz consigo o interesse pelo sentido das coisas, pelo sentido da vida, pelo todo, pelo universo!

É provável que todos nasçam ‘sendo’, em seguida, por força da cultura instalada, deixam de ‘ser’ para poder ‘ter’, contudo, se desejam, algum dia, ser lembrados como alguém que ‘foi’, deveriam tomar para si o grande desafio de voltar a valorizar mais o ‘ser’ do que o ‘ter’! Por sorte, enquanto as pessoas não aprendem a tratar e a dar a atenção que o Seu Inocêncio Venâncio Gonçalves dos Santos merece, o seu gato Chumbinho o faz!

Marcondes            07 de julho de 2015        03:05

Gostou? Então compartilhe