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Porque admiro tanto o Aryoldo!

HISTÓRIA DO TORNO JONES & LAMSON.

Amigos, recebi a crônica abaixo de Aryoldo Machado.

Ele a me enviou e pediu que eu a avaliasse para ver se poderiamos publica-la. Acabei de le-la.São 02:03 do dia 11 de Junho de 2012. Não pude resistir à tentação de publica-la no meu blog agora mesmo. Como ele é meu amigo, nem esperei a autorização final. Se ele achar ruim, sei que vai me perdoar e eu retiro o texto dele do ar. Por que tive essa reação? O que eu senti? Deixarei que vocês mesmos cheguem à conclusão! Se você for egresso da área da mecânica, como eu, e tiver vivido algumas decadas nesse ambiente, vá em frente e leia até o fim. Vale muito a pena!

Marcondes.

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Dia destes, em visita a uma boa empresa no interior de São Paulo, por coincidência era hora de almoço. Todas as máquinas estavam paradas, ao fundo só se ouvia um ruído de ar comprimido vazando em alguma mangueira, ou em um conector de engate rápido. O gentil empresário que me acompanhava neste “plant tour” (visita às instalações fabris) exclamou: Como é triste ver as máquinas paradas! Concordei e me lembrei neste instante de muitos fatos onde presenciei máquinas paradas por “n” circunstâncias, inclusive por greves, por acidentes, ou pela normalidade dos feriados e horários sem turnos de trabalho. Um empresário, ao perceber as máquinas paradas, sempre pensa na última linha do balanço, “money” (dinheiro), em outras palavras, no resultado operacional da companhia. Eu já vejo também o lado nostálgico, sem nunca deixar de considerar também o lado material, o objetivo número “um”  da empresa que é, invariavelmente,  o resultado.  Mas sem mais delongas, considerando todo esse aspecto administrativo, há um fato que me marcou muito, que é o causo (caso) do tornão fabricado pela antiga JONES & LAMSON, originário dos EEUU. Trata-se da história de uma máquina que um dia deixou de funcionar. Eis o dito caso:

Na época eu era um gerentão de uma grande empresa, com vários departamentos, de usinagem, montagem, soldas e outros que tais. Foi um tempo em que eu exercia funções bem distintas das que exerço hoje como consultor. Minha sala estava em um mezanino, bem em cima de um departamento de usinagem de eixos varões localizadores. Este setor tinha muitos tornos trabalhando direto, em três turnos, e dentre eles o grandão que era um torno revolver, convencional com um antigo aparelho de barras, e que fabricava alguns modelos bem parecidos de pinos que serviam de eixos para engrenagens chamadas de “louca da ré”. Um nome bem curioso para quem não seja familiar aos jargões da indústria mecânica.

No primeiro turno, que começava às 05:00 da manhã, havia um operador, já experiente,  não tão jovem, mais laborioso e calmo, com o qual eu tinha mais contato (infelizmente o tempo apagou seu nome de minha memória sem dó). Esse era um apaixonado pela tal máquina e como era zeloso com o seu tornão, pois o mantinha sempre brilhante, lubrificado e fazia questão de ir colhendo os cavacos evitando que acumulassem.

O tornão trabalhava com a matéria prima em forma de barras longas, de 4 metros, dispostas no aparelho porta barras, sendo que uma delas passava por dentro do eixo árvore para se apresentar ao torneamento. Com o torno girando em baixa rotação, pois nem daria para ser  mais rápido, por conta do próprio desbalanceamento da barra, a operação propagava um som bonito como um sino em constante tintilar, porém, ao invés do badalo no bronze, a melodia era gerada pelo bater de aço com aço ou com o ferro fundido da estrutura.

Dia e noite eu ouvia e podia acompanhar a produção pelo som. Quando o torno parava, na maioria das vezes, era por problemas de manutenção ou então por falta de planejamento que, por alguma razão, deixava faltar material para o trabalho.

Este torno chegou junto praticamente com a fundação da empresa nos idos e prósperos anos 50, e já era usado. Vejam, quantos operadores passaram por ele, quantas oportunidades de trabalho estavam naquele posto, naquela máquina. Operadores ganharam seu sustento colocando a peça na placa, torneando, medindo, corrigindo, preparando, retirando as peças e colocando em caixas para a operação seguinte. Por ele, o tornão J&L, muita gente teve a oportunidade de se manter, casar, comprar uma casa, estudar os filhos, viajar, poupar, tiveram chance de evoluir para cargos melhores, enfim, viver uma vida com o sustento proveniente daquele trabalho. Cada tilintar era como se fosse de uma moeda sendo colocada no cofrinho do dia a dia, de cada um que estava ali à sua frente, interagindo mutuamente; um com a força de corte, o outro com a força do músculo; um valendo-se do pensamento nascido no cérebro e o outro do movimento gerado por fusos e barramentos. O operador, do qual não me lembro o nome, muitas vezes me disse que, graças aos serviços executados naquela máquina havia formado os filhos, construído a casa própria e, ainda,  se mantinha dignamente.

Os tornos convencionais carecem do homem para operá-lo, pois ele é só força e não tem computador ou CNC que pense por ele e o dirija. Ele precisa ser dirigido. Não é como nos tempos de São Paulo quatrocentão, dos idos de 1954, onde as propagandas pregavam “NON DUCOR, DUCO”, ou seja, “não sou conduzido, conduzo”. Este é o aspecto que muitos profissionais não vêm, os desdobramentos que se originam de um simples posto de trabalho, os aspectos que tangem a vida, o dia a dia, as alegrias, as frustrações, as necessidades e tristezas de cada pai de família. Quantas vezes o operador tem que entrar no palco do trabalho, carregado de pensamentos e tristezas, vestir “la giubba” (a roupa de trabalho, paletó em Italiano) porque o trabalho “must go on”; ou, como diria o poeta, o show tem que continuar; pois é assim que vejo toda essa metafísica, que se origina da interação de cada pessoa,  cada profissional postado em frente de cada máquina. Eu, às vezes, em meus devaneios, chegava a imaginar que, talvez, a máquina pressentisse tal situação, como se fosse um ser vivo, e procurava entoar um ruído mais alegrinho para estimular e encorajar seu próprio operador. Seguindo nessa linha, imaginava como ele, o tornão, deveria se sentir mal, caso ocorresse algum acidente ao operador ou a ele mesmo, por conta de algum movimento mecânico mal sucedido que pudesse vir a interromper a suave melodia.

Por que estou falando deste torno especificamente, visto que por trás de toda a máquina existem histórias semelhantes? Lembre-se de como comecei esse relato. Falava sobre máquinas paradas. Então, por que? Passado um tempo nesta minha gestão, e devido a uma oportunidade percebida pela alta direção daquela empresa, o setor foi terceirizado. Todo o trabalho foi para o novo empresário, que iria a partir de então fazer todas as peças deste departamento e entregar segundo as rotinas da já proliferada técnica do “just in time” (entregas na hora exata da necessidade,  seguindo cronogramas flutuantes, acompanhando a volatilidade das demandas). Tudo muito bonito, pois, de novo, isso iria afetar positivamente a ultima linha do demonstrativo financeiro. A partir de então, nunca mais vi o senhor operador. Tudo foi feito abruptamente, sem que se tivesse, se quer, uma chance para alguma alternativa de realocação de recursos, algum tipo de “overlapping” que pudesse poupar a nostalgia que ora me invade.

Não vou discutir isso, e nem o quero. Todavia, o senhor operador teve de continuar sua vida sem o auxílio musicado do velho J&L. E ele, o velho J&L, por sua vez, em face dos estudos feitos pelo novo empresário, foi silenciado. Ele parou. Suas engrenagens, o aparelho de barras, o motor, a mesa, a espera porta ferramentas, o castelo porta ferramenta, todos em fim silenciaram para sempre.

Um dia, nós em companhia de outros profissionais da empresa, fomos verificar em um depósito de um grande leiloeiro de máquinas da região, se existia uma máquina sei lá para que, da qual nós estávamos precisando. É um choque, para mim que não raciocino só em termos de dinheiro, que não vejo o mundo apenas pela perspectiva monetária, ver tantas máquinas desativadas, clamando por seu passado, pela sua anterior interação com humanos, gritando silenciosamente para voltar a rodar, vibrar, cortar, soldar, pintar, dobrar. Creiam, é um choque!

Naquele amontoado de máquinas sem vida, nem ruído de ar comprimido vazando tinha. Nada, só poeira e silêncio. Todas elas mortas para dar vazão ao prodigioso progresso.

Como é triste ver máquinas paradas. De repente, vi me envolto em teias de aranha, poeira, sucatas ao redor, e para meu espanto, lá estava ele o velho amigo, o querido TORNÃO J&L. Meu Deus! Me emocionei! Contudo, ninguém percebeu minha furtiva lágrima e, se viu, imaginou ser apenas um cisco no olho. Se eu pudesse, eu o abraçaria, e ficaria ali  horas ouvindo suas histórias. Eu fui embora e ele ficou no seu silêncio. Isso me acompanha e vai me acompanhar sempre. Adeus velho J&L.

Aryoldo Machado.  (Um pessoa que me orgulho de conhecer)

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