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Mais que presente, uma graça!

A Marcela e o Vô

Da janela do meu quarto avistei, ao longe, rubra esfera vagarosa caindo no poente. Deslizando pelo áureo firmamento, heterogênea navegante, reluzia por entre serenos flocos gasosos que me privavam da sua total percepção.

Descuidado de mim mesmo e daqueles por quem velo, desprendi-me de minhas tantas pendências e obrigações sem fim e pondo me livre de minhas próprias cobranças e frustrações, fui, aos poucos, deslocando-me para lugar nenhum do espaço.

Desapegado do dever e das responsabilidades sobre mim acumuladas, nenhum objetivo norteava o meu pensar e minha existência esvaiu-se de mim, de maneira que tornei-me nulo ante a paisagem da qual emergia a minha pálida existência. Sim eu vivia, contudo, lá não estava. Por um desmedido instante tornei-me intangível, tanto quanto as razões que a este estado me levaram.

De repente, nada havia para se explicar, nada para se alcançar ou para se entender. Não havia nada para se apresentar e também nada para se esconder. Não havia nada notável, louvável, desprezível ou imperdoável, nada havia a se fazer. E foi assim que pude contemplar o indescritível, pois, tudo o que lá havia ou deixava de haver, simplesmente era como era, sem nada precisar ser.

Perdi-me da razão e as palavras me foram tolhidas, assim como todos os meus demais sentidos, mas, mesmo dessa maneira, eu ainda era, tanto quanto o nada o é, por não haver razão nenhuma de ser.

E eis que, subitamente, contemplei um foco de luz clara e azulada vagueando ao longe. Como uma lanterna em mãos curiosas. Tateava o inteligível desconecto da mente humana, pertinente ao infindo espaço que ao todo envolve. Se difícil é de se entender, não menos difícil me é de descrever!

Diligente fiz-me próximo, mas o foco de luz não me podia iluminar e ao mesmo tempo cegava-me de ver quem o conduzia. Era impossível se pensar, se lembrar ou se esquecer, todavia iluminava e nisto se pôde crer. Como um redemoinho disparei-me velozmente ao redor do foco de luz e…, não sei como, pude absorver impulsos de energia, mantenedores da estranha luminosidade.

__ Loucura! Me sugeria o silêncio.

Circulei com mais velocidade ao redor da luz…

__ Insânia! Bradou-me o inexistente em grande alarido.

De repente vislumbrei um cenário: Um par de mãos ansiosas puxavam a um frouxo fio de barbante, como se ele nada trouxesse em sua outra extremidade. Uma mão após a outra, puxava o fio com destreza, mas o fio nunca esticava, por não encontrar firmeza, pois a nada estava preso!

Atordoado com os meus movimentos giratórios e surpreendido com o ocorrido, escapei muito velozmente para lugar nenhum. A medida que me afastava, percebia que o foco de luz a nada se resumia, e aos poucos se assemelhava ao cintilar de brilhante grão de areia perdido em imensa praia. Era espantosa a velocidade imposta ao meu deslocamento, embora algo me dissesse que eu estava, exatamente, no mesmo lugar.

Mal conclusa essa experiência, fez-se em mim o desejo intenso de buscar novo alento à minha curiosidade; e eis que surgiu do vácuo uma fresta iluminada, em cujo facho de luz, apressei-me em penetrar. A luz era clara e forte, mas incapaz de me aquecer. Contrapunha o breu da noite com o pleno alvorecer.

Apesar de minha plenitude inerte, esforcei-me por compreender o que se passava, contudo, inutilmente. Dei-me conta então que poderia envolver tal facho de esperança, como dantes já fizera em semelhante situação. Disparei-me ao seu redor em espirais e algo de mim, tal qual um espírito em remoinho, começou a se formar. A medida que em torno desse foco luminoso eu girava, mais me vinha a apreensão e a ansiedade.

Contemplei, então, uma estranha luz clara e esverdeada, na qual jamais repousara a visão humana. Mesmo assim ela existia e se alojava entre os preconceitos da natureza das pessoas; entretanto estava tão próxima do homem e era tão intensa e continente, que a tudo dominava e a ela não se podia perceber ou sentir, apenas crer.

Espantei-me grandemente com o que ali estava, pois estava muito além da minha compreensão. Temi ser transformado em cristais de sódio ou vapores luminosos, tão enorme eram os mistérios e a força contidos naquela radiação.

Foi então que me senti como um cão prestes a falar como homem, embora irracional. Todavia, quando ousei achegar-me mais à sua privacidade, estupendo impacto arremessou-me a anos luz de distância daquilo que parecia se esclarecer ante minha presença.   Vi-me então, novamente, envolvido por turbilhões de conflitos inviesantes, dogmas e paradigmas, que se quer me permitiam lampejos da sabedoria contida nesse mundo superior, qual privilégio me trouxe fascinante facho de luz.

Nada fazia sentido, nada se prendia a nada e nenhuma hipótese se fazia consistente. Quis eu gritar, mas não tinha voz, quis correr, mas não tinha pernas. Quis lutar e socar, mas não tinha braços. Prezei morrer como forma de fuga, porém, como já disse, essas coisas não faziam sentido nesse lugar. Não havia diferença entre a vida e a morte, apenas tudo era.

Em busca de alívio para minha aflição, passei a girar em torno do nada; o que a princípio me pareceu impossível, até compreender que, como o nada não existe, girar em torno dele é o mesmo que permanecer inerte em alta velocidade. Apesar de nada ser e nada fazer sentido, fiz-me nulo, fiz-me feto, fiz-me um ponto comprimido entre o sonho e o concreto. Foi assim que o meu reverso se voltou para o universo do interno tão imerso, que em mim tão escondido, ocultava mais sentidos, entre os cinco conhecidos, porém, nunca antes referidos nem em prosa nem em verso.

Como em lugar nenhum tudo é possível, ao mesmo tempo em que deixa de ser, tais sentidos eram unos, ao mesmo tempo que distintos, individuais, embora, coletivos. Era possível tê-los unos ou separados, mediante a intensidade do meu conhecimento, tanto quanto da minha ignorância. Eram consequentemente harmônicos e convergiam para os espaços que lhes eram razão de vida.

A afinidade desses sentidos era tanta, a ponto de substituírem-se mutuamente, transpunham obstáculos, assumiam funções a eles respectivamente não pertinentes, contudo, como eram unos ao mesmo tempo em que distintos, não consistia esse ato em nada mais do que a normalidade. Sem que eu fizesse nenhum esforço para isso, dei-me conta de que do nada emanava um som assemelhado ao de uma radiação infinda; fonte da gênese, tanto quanto do apocalipse. Ao fazer-me livre ante a essa radiação e pondo-me calado a ponto de ouvi-la, em tudo me era possível estar ou ser, mesmo sem existir.

Estupefato ante ao que vi, quis cair por terra, mas não me era possível, pois em lugar nenhum não se pode cair. Rangi então o que poderiam ser meus dentes e dali escapei em pânico a tal ponto que explodi nuclearmente o que não havia de mim em todas as direções. Separei-me em bilhões de fragmentos, entretanto, sentia-me único e tudo o que se passava a cada um de meus fragmentos era singular à mesma existência, à qual habitava, ao mesmo tempo, cada um dos meus pedaços.

Contemplei então um brilho indefinido, e fiz-me perto distraído, sem sonhar que desse brilho nascia o alvorecer. Revirando em remoinho tão vazio quanto farto, dei-me conta do sonhar que levou-me a debruçar na janela do meu quarto.

Uma fada pequenina em seu mundo tão recente girava em torno de mim; sua presença; um presente! Senti que me dominava soberana ao meu querer, mas ali eu não estava e nem poderia ser, pois tudo o que se passava era um sonho indecifrado, de alguém que já viveu muito, mas tem muito por viver. Tal qual a fada Sininho, este ser pequenininho pareceu me perceber. Sorriu e soprou de leve e como um floco de neve comecei a derreter. Doce sopro como a brisa congelou minhas entranhas, contra forças tão estranhas não pude prevalecer, revirei-me em remoinho até desaparecer.

Rubra esfera vagarosa se pondo no anoitecer, percebeu-me na janela do meu quarto a me perder, resvalou minha memória e me fez voltar a ser.

Marcondes    04 de novembro de 2014          01:31

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