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O mundo é mais do que parece ser!

0123 A Casa na Roça

Por onde passa o gado a grama não cresce! De tanto pisar a mesma trilha extinguem-se as demais hipóteses. Ao menos, a todo aquele que se contenta com o que lhe põem no cocho. Mesmo havendo alternativas em abundância, por que explorá-las se ao fim do caminho de chão batido encontra-se a fácil providência? Ainda que a exuberante natureza supra os arredores de fartas possibilidades, estas ficam às margens da vida, pois o conformismo condiciona o passo aos rastos da manada.  De tanto tomar por referência o rabo da rês que vai à frente, restringe-se a marcha a uma estreita via de mão única, enquanto a esperança delega à sorte os desejos de longevidade e a prevenção de um prematuro abate! A reflexão é sempre  dolorosa a quem habituou-se a viver de acasos e impulsos!

Cerco minha casa para que o gado não pise minha horta e não coma as roupas que estendo no varal. Não quero que se alimente do meu jardim em flores. Por mais que o esterco me tenha alguma serventia, prefiro apanha-lo no pasto do que ver o gado babando na minha alface! Limito meus sonhos às abas do meu chapéu. Vivo dos meus arredores. Creio até onde alcança o lume de minha lamparina! Quando a semente é boa e a capina honesta, a lavoura rende o suficiente para sustentar a mim e aos meus. Frutos e espigas me inundam a vista enquanto o vento farfalha ramas e pendões ao sabor da brisa que flui alegrando a roça. Minha vida é como um tacho de doce fervilhando sobre as chamas do borralho. Se parar de mexer queima. É preciso vigiar e remexer até que se chegue ao ponto. Dá trabalho, mas adoça a alma! Para o que preciso me  basta!

Ao final do dia sinto cada um dos meus ossos, como se fossem tábuas pregadas, que aos poucos se vergam pela ação do tempo. Porém, agarrado aos meus princípios como os pregos que as fixam aos mourões, sento-me à varanda a contemplar o poente. Encanta-me ver a pequena aranha que tece, incansável, seu pegajoso universo, enquanto uma graciosa corruíra adentra mais uma vez seu camuflado ninho por entre os intrincados galhos do limoeiro, Ouço os filhotes  festejarem a chegada de mais um apetitoso inseto. Ao longe coriscos riscam o céu, anunciando a chegada de mais uma noite de bênçãos para as plantações. Repentinas rajadas de vento invadem o terreiro a formar remoinhos que suspendem ao ar partículas que me acessam memórias e lembranças. Sinto o cheiro da chuva que já vem. Convém por a trincos e tramelas cada uma das portas e janelas, além de posicionar a bacia de lavar os pés sob a irreparada goteira. Ao menos servirá para me embalar o sono! Aproveito para recolher me ao som das divinas gotas que tocam o telhado do meu quarto sem forro, como se fossem uma ária de Bach. Assim suspiro e adormeço!

Marcondes                       11 de Julho de 2014                           00:29

 

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24 comments on “O mundo é mais do que parece ser!”

  1. cicero Responder

    Bom Dia!

    Caro professor Marcondes, Tenho muita alegria em ler o que escreve, singelo porem de muita sabedoria a suas palavras.

    Grande saudade.

    Cicero Antônio

    • marcondes Responder

      Olá Cícero!
      Te desejo um bom dia!
      Obrigado por tuas palavras.
      O mundo urbano nos faz perder parte da pureza da alma.
      Fico feliz que goste do que escrevo. Tenho por meta aprimorar esse meu gosto e nesse sentido, os comentários que recebo me servem de baliza!
      Precisamos combinar um dia para nos reunirmos, convidando o pessoal da classe.
      Um grannnnde abraço e mais uma vez obrigado!
      Marcondes.

  2. Aldeci Responder

    Bom dia Marcondão, mais uma vez gostei de ler seu texto. Saber valorizar pequenos detalhes nos energiza e quando desviamos a mente da rotina para buscá-los, nasce um sentimento de paz que a natureza propicia e está sempre lá, basta querermos. Uma boa semana! Aldeci

    • marcondes Responder

      Grannnnde Aldeci!
      Tua visita sempre me alegra.
      É assim mesmo que penso. A rotina organizacional acaba nos tolhendo a beleza existente na simplicidade da vida rural.
      Espero que tudo esteja muito bem com você e tua família que tanto prezo!
      Sei que tem havido uma série de mudanças por aí. Fico feliz em saber que você continua firme carregando a bandeira que juntos conseguimos hastear.
      Grannnnnnde abraço e lembranças a todos!
      Marcondes.

  3. Tatiana Responder

    Se parar de mexer queima??
    Então não dá mesmo pra parar, né?!
    Vamos continuar mexendo sempre sempre, até chegar ao ponto, até adoçar a alma!!!
    Lindo! Mto obrigada por mais essa leitura Marcondes!!
    Um grande bj!

    • marcondes Responder

      Estimada Tatiana!
      Um bom dia pra você!
      Se fosse possível te ofereceria um café passado na hora.
      Muito obrigado pela tua visita e por tuas palavras motivadoras.
      Grannnde abraço e lembrança a todos por aí!
      Gosto muito de vocês!
      Marcondes.

  4. Adalberto Responder

    Caro Marcondes, muito bom dia!
    Hoje em especial, o texto tocou mais fundo meu coração, uma certa mistura de saudade com esperança. Parabens ó Grande Mestre Inspirador.

    • marcondes Responder

      Olá Adalberto!
      Um bom dia pra você!
      Vivendo há tantos anos em Sto André em em meio ao turbilhão que é a cidade grande, muitas vezes minha alma reclama a simplicidade que pude experimentar nos meus tempos de criança!
      Grande abraço e muito obrigado por tuas palavras de apreço!
      Marcondes.

  5. Cida Responder

    Marcondes bom dia meu querido !, fui longe agora , fazendo essa leitura fechei meus olhos , e vi meu passado , com o canto dos pássaros , a chuva caindo sobre o telhado da casa simples dos meus pais que estão longe , mas perto do meu coração , onde o raiar do sol chegava cedo e, eu contemplava o céu azul com o meu olhar perdido no horizonte , tentando entender certas coisas das quais era sucumbida , aos 11 anos fugi de casa , vim para a cidade selva de pedra , aqui estou até hoje em nada me arrependo mas, hoje se pudesse voltaria , para aquele lugar tranquilo , onde se houve somente o canto dos pássaros , o galo cantando na madrugada ! os cachorros latindo as visitas inesperada eita mundão de meu Deus , como te és maravilhoso , quem sabe um dia ! não !!! seu texto foi ótimo tenha um excelente dia .

    • marcondes Responder

      Prezada Cida!
      Te desejo um bom dia e que Deus possa te conceder o resgate dessas preciosidades.
      Tuas palavras também me fazem viajar aos sertões da minha infância.
      Sou uma pessoa urbana de alma sertaneja. Te compreendo perfeitamente.
      Há uma música do Luiz Gonzaga chamada “Sertão de Canindé” de onde tiro o texto abaixo que se alinha com essas nossas memórias:

      “Quem é rico anda em burrico, Quem é pobre anda a pé
      Mas o pobre vê nas estrada o orvaio beijando as flô
      Vê de perto o galo campina que quando canta muda de cor
      Vai moiando os pés no riacho que água fresca, nosso Senhor
      Vai oiando coisa a grané, coisas qui, pra mode vê
      O cristão tem que andá a pé”

      Muito obrigado por tuas palavras e pela tua companhia!

      Grande abraço!

      Marcondes.

  6. Néstor Andrés Cagnoli Responder

    Marcondes: cuantos libros de Gabriel Garcia Marquez ya has leído?Estás muy parecido con él, en tus composiciones!Gracias por las letras derramadas en el papel!

    • marcondes Responder

      Estimado Néstor!
      Que privilégio meu receber tua visita e teu comentário!
      Muito obrigado por tuas palavras, pois me servem de incentivo.
      Te-lo como leitor aumenta minha responsabilidade e minha satisfação!
      Grannnnde abraço!
      Marcondes.

  7. Renata Feitosa Responder

    Boa Tarde!

    BELA, como todas as outras que escrevestes nesta coluna..

    E em particular, fazendo nos reviver nossas origens, essência da qual, nunca se faz esquecida na memoria de um sertanejo.

    Abraço.

    Renata Feitosa.

    • marcondes Responder

      Olá Renata!
      Obrigado por suas palavras e por sua companhia!
      Curti muito o sítio do meu avô onde morei até os 3 anos, mas na minha infância e adolescência vivi momentos muito felizes por lá!
      Às vezes mato a saudade por meio das fotos que encontro e me inspiro a homenagear minhas origens!
      Mais uma vez obrigado!
      Grande abraço!
      Marcondes.

  8. Anderson Responder

    É um texto maravilhoso. Refúgio diante de tantos textos sem fundamentos existentes na internet. Suave e preciso, em Paz e para o bem. Excelente!!!

    • marcondes Responder

      Olá Anderson!
      Muito obrigado!!!
      Ganhei meu dia com o teu comentário!
      Fico muito feliz quando acerto um bom texto!
      Valeu mesmo!
      Grande abraço!!!
      Marcondes.

  9. Vinícius Souza Responder

    Marcondes, este ai deu pra ouvir ao fundo o som da viola caipira…dez cordas de muita história!
    Gostei demais deste texto, é a reflexão dos sentidos que damos pra nossos passos…

    Parabéns!

    • marcondes Responder

      Pois é Vinícius!
      Eu nasci num sítio e curti boa parte da minha infância muito próximo da natureza e das modas de viola! Meu pai era violeiro e tinha orgulho disso!
      Pra você ter uma idéia, tenho 3 dessas violas em casa.
      Uma delas ficou de herança de um dos meus tios que formava dupla sertaneja com meu pai!
      Embora eu viva e tenha toda a minha vida ligada à cidade grande, minha alma continua sertaneja!
      Grande abraço!
      Marcondes.

  10. Cosme Leandro Responder

    Resolvi voltar a base, faz um ano comecei a construir minha nova morada, que é na roça, ao ler textos como esse percebo que estou no caminho certo, muitas vezes a riqueza está na simplicidade….
    Obrigado Marcondes pelo(S) excelentes textos
    Cosme leandro

    • marcondes Responder

      Olá Cosme!
      Me alegra saber disso!
      Minha profissão me abriu oportunidades para conhecer muitos lugares, muitas cidades, dentro e fora do Brasil. Visitei metrópoles maravilhosas, ambientes sofisticados, mas nada toca tanto o meu coração como a simplicidade da vida da roça.
      Saber da tua decisão me alegra. Também penso que está no caminho certo.
      Que você seja muito feliz! Que Deus abençoe tua decisão!
      Grannnde abraço!
      Marcondes.

  11. sandra regina rodrigues Responder

    Em pensamento, mando muitas Marias Jacintas pra vc lembrar do cheiro da sua terra.

    Saudades.

    Sandra.

    • Francisco C Marcondes Responder

      Olá Sandra!
      Obrigado pela visita e pelo comentário.
      As Marias Jacintas, assim como as chamamos na minha terra, também são chamadas de Lírios do Brejo em alguns outros lugares.
      Mas realmente o perfume das Marias Jacintas tocam na minha alma sertaneja.
      Mais uma vez, obrigado!
      Abraço.
      Marcondes.

  12. Iraci Responder

    Estou extasiada com o seu blog.
    A tempos não via alguém escrever coisas tão lindas e cheias de honestidade.
    Eu também, nasci e fui criada na roça e conservo até hoje, todas as lições que a natureza me deu .
    Sou eu, uma eterna roceira, mesmo morando na cidade.
    Parabéns pelo blog!!!

    • Francisco C Marcondes Responder

      Nossa Iraci!
      Ganhei meu dia!
      Acho que estava mesmo precisando ouvir isso!
      Muito obrigado!
      É muito bom encontrar ressonância com aquilo que pensamos e com aquilo que tomamos por filosofia de vida!
      Me perdoe a demora em te retornar, mas só vi e li o teu comentário hoje!
      Mais uma vez obrigado!
      Marcondes.

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